ELEIÇÕES 2018 - Uma análise da inversão das preferências do eleitorado | Professor Juliano Marcel
O presente artigo pretende abordar as
eleições de 2018 no Brasil, onde a disputa entre os candidatos e partidos
promoveram muitos resultados considerados inesperados. Desde 1994, temos as
disputas eleitorais para presidentes orbitando entre dois partidos, como no
caso do PT e PSDB, sempre com um terceiro desafiante que pouco representou uma
ameaça para ambos. No entanto, estas eleições colocaram na corrida eleitoral um
terceiro desafiante pelo PSL, que inverteu, radicalmente, as preferências dos
eleitores pelos partidos historicamente reconhecidos na disputa. Assim,
trataremos desta inversão da preferência eleitoral nas eleições de 2018, que
levou à presidência, o militar reformado Jair Bolsonaro.
Do anonimato do
partido à uma das maiores bancadas no Congresso Nacional
As eleições de 2018, apresenta um fator de
eleição atípica, pelo fato de o PSL ser um partido pequeno, sem expressão
política, sem ter um político ocupando alguma pasta no executivo desde a sua
fundação em 1994. Tendo colocado apenas um parlamentar na campanha de 2014, o
partido elegeu, nesta eleição, 52 deputados federais e quatro senadores em
2018: Juíza Selma Arruda (24,6%), em Mato Grosso, Soraya Thronicke (16,1%), em
Mato Grosso do Sul, e dois dos mais votados do Brasil: Flávio Bolsonaro
(31,6%), com 4,2 milhões de votos no Rio de Janeiro, e Major Olímpio (25,81%),
escolha de 8,8 milhões de eleitores em São Paulo. O partido ainda levou para o
segundo turno três candidatos a governador, o Coronel Marcos Rocha (23,9%), em
Rondônia, o Comandante Moisés (29,7%), em Santa Catarina, e Antonio Denarium
(42,27%) em Roraima, respectivamente eleitos no segundo turno. O Rio de Janeiro
foi o estado que mais elegeu deputados do partido, somando 12 no total, seguido
por São Paulo, com 10. Aparecem na sequência Minas Gerais (6), Santa Catarina
(4), Rio Grande do Sul (3), Paraná (3), Goiás (2), Mato Grosso do Sul (2),
Amazonas (1), Bahia (1), Ceará (1), Espírito Santo (1), Mato Grosso (1), Paraíba
(1), Pernambuco (1), Rio Grande do Norte (1), Rondônia (1) e Roraima (1). O
crescimento da sigla coincidiu com a mudança em seu perfil ideológico, fato
este determinado pela migração de Bolsonaro para o partido, chegando ao segundo
turno presidencial, e sendo eleito com 55,13% dos votos válidos.
No entanto, sua candidatura cumpriu o
papel do desafiante no pleito de 2018, uma vez que desde 1994, as eleições
presidenciais têm sido disputadas no segundo turno entre PT e PSDB. Nas outras
eleições, os desafiantes não representaram forte ameaça à hegemonia dual entre
estes dois partidos. Entretanto, nas eleições de 2018, o desafiante conseguiu
desbancar a supremacia política do PSDB, promovendo um segundo turno entre PT e
PSL.
Inversão das
preferências eleitorais
Quais fatores determinaram esta escolha?
Uma das possibilidades é a capacidade do candidato desafiante conseguir
dialogar diretamente com seus eleitores. Ou seja, a ruptura do muro de
separação entre o candidato à Presidência e o eleitor-cidadão. Esta aproximação
se deve à capacidade de identificar as demandas populares e assumir o posto de
porta-voz de um grande grupo de eleitores insatisfeitos com a velha política, sendo
que os demais candidatos, ou não conseguiram dar respostas à altura destas
demandas, ou fazem parte de partidos que estão no foco das tensões e denúncias
de corrupção. Os eleitores que migraram da preferência dos partidos de centro e
centro-direita para o desafiante do PSL, assumindo um posicionamento
conservador de extrema-direita, se mostraram descontentes com os partidos
políticos e seus candidatos, justificando esta escolha extremada. Afirmações
como “Precisamos de mudança”, “Chega de PT e de corrupção”, “O Brasil está numa
situação econômica terrível”, “Ele vai combater a criminalidade com leis mais
duras”, “Ele é temente a Deus e a favor da família”, são alguns dos motivos
apresentados pela preferência dos eleitores à Bolsonaro. Assim, Bolsonaro
representa, para seus eleitores, a opção contra a corrupção e um antipetismo
exacerbado, uma vez que grande parte de seu eleitorado responsabiliza o governo
PT (que estava no poder desde 2003) pela crise econômica no Brasil que gerou um
número alto de desemprego (chegando próximos dos 13 milhões) e pelas constantes
denúncias de corrupção e prisões efetuadas pela operação Lava-Jato. Bolsonaro
se apresenta como esta alternativa que atenderá as demandas populares que
querem mudanças e medidas radicais para a política no Brasil.
Aqui cabe analisar se os eleitores estão
fazendo uma escolha a partir de informações que lhes chegam de diversas fontes,
se estão fazendo uma escolha racional, se existe um maior interesse político
por parte dos eleitores, se existe uma identificação partidária ou
personificada, ou se estão fazendo a opção do voto útil, onde se faz a escolha
a partir daquele que está mais perto dos anseios individuais, a partir de um
ordenamento de preferências, em contraposição aos dos outros candidatos.
A decisão do voto,
por Marcus Figueiredo
Existe uma linha teórica, que se debruça a
analisar as escolhas eleitorais, que foi proposta por Marcus Figueiredo em sua
obra Democracia e racionalidade
(2008). Para Figueiredo, segundo a Escola de Michigan, uma das primeiras
características é o nível de interesse por política do indivíduo. Leva a um
nível diferente de engajamento, de busca por informação e construção de
lealdade. A exposição ao conteúdo sobre política determina o seu nível de
interesse por política. Período de formação do indivíduo, com influência
familiar, com nível de escolaridade mais alto. Estes eleitores que tem grande
interesse político, são estáveis, com um sistema de crença estável. O interesse
está diretamente ligado ao nível de escolaridade e não em diferença de classes
sociais. Uma segunda característica é a atitude. Atitudes são formadas e tendem
a ser estáveis no tempo. Isso leva a uma noção de sistemas de crenças. A
quantidade de pessoas que tem este sistema de crenças estruturado é pequena. A
terceira característica é a personalidade. Pessoas com personalidade
autoritária e personalidade democráticas. Para Figueiredo, há uma relação
inversamente proporcional entre o quão sensível você é aos estímulos
momentâneos, nível de engajamento e sistemas de crenças. Se há uma
identificação com um partido, os estímulos momentâneos não importam. A maioria
da população é suscetível à estímulos momentâneos.
Figueiredo propõe uma segunda abordagem na
teoria sobre as escolhas do eleitor, é a teoria sociológica, que é dada pelo
contexto. Para esta abordagem, não são as atitudes que são relevantes, mas onde
e como vivem os eleitores. É a partir deste critério que vai determinar como o
indivíduo atua na escolha do voto. Os grupos vão determinar as clivagens
eleitorais. A preocupação saiu do indivíduo e se dirigiu para os coletivos
sociais. As teorias sociológicas afirmam que o indivíduo assume as ideias de
determinado grupo que participa. É fundamental compreender que as interações
sociais são importantes para determinar as atitudes dos indivíduos. É mais
importante a compreensão de como os grupos pensam, do que determinado indivíduo
isolado pensa. As atitudes dos indivíduos, suas preferencias, são determinadas
pelo grupo ao qual pertencem. Diferentemente da teoria psicológica, a
identidade política é desenvolvida a partir da identificação com o grupo (uma
crítica à teoria, é a determinação ou não da consciência de voto a partir da
escolha e um determinado indivíduo).
Uma outra abordagem de Figueiredo, é a
teoria da escolha racional. Esta teoria parte de dois pressupostos básicos: os
indivíduos são racionais e são capazes de tomar decisões racionais, a partir
das informações que possuem. Existe, portanto, uma premissa da racionalidade e
uma premissa da comportamento auto-interessado (egoísmo). A ideia da escolha
racional vem da economia, do homem econômico que maximiza o bem individual
tomando decisões que são ordenadas de modo racional. A crítica a esta teoria, é
que as premissas não podem ser explicadas empiricamente. Ou seja, o que motivou
a atitude do indivíduo (micro fundamento da ação), por que o indivíduo fez o
que fez, por que tomou aquela atitude? Os indivíduos têm capacidade, tempo e
distanciamento para escolher, necessariamente, as suas ações. Figueiredo propõe
ainda uma outra premissa, a da finalidade – toda ação tomada tem como fundamento
a finalidade pessoal. Neste sentido, a escolha do indivíduo se estabelece na diferença
entre “risco” e “incerteza”: risco – para calcular a ação, o indivíduo faz o
cálculo de probabilidade, existe a possibilidade de dar errado, mas os riscos
são mínimos; e, a incerteza – ausência de qualquer informação para tomar uma
decisão. Pessoas que acompanham a política, costumam tomar decisão após intenso
cálculo de probabilidades, que contém determinados riscos. As escolhas
racionais são tomadas a partir do risco. Existem dois tipos de escolha racional
que os indivíduos fazem: a escolha paramétrica – é o que se faz quando se tem
duas opções, e se escolhe o que for melhor de forma individual; e a escolha
interdependente – é quando se tem mais de duas opções. Quando se tem mais de
duas opções, se escolhe no sentido inverso a partir do que os outros vão
escolher. Se vota, a partir daquele que está mais perto dos anseios
individuais, a partir de um ordenamento de preferências, em contraposição aos
dos outros indivíduos. É o clássico “voto útil”.
Considerações
finais
Como tudo isso se explica a partir do
contexto do voto? Se o custo de votar é alto, considera-se o benefício que se
vai ter com o voto. Tanto os políticos quanto os eleitores são indivíduos
racionais e auto-interessados. O político quer um benefício com a política e, para
conseguir ter sucesso, ele precisa de votos. Os eleitores fazem um ordenamento
de preferências para escolha do político e toma a decisão a partir daquelas que
mais se aproximam com suas convicções particulares. Ou seja, fazem a opção pelo
voto prospectivo, que considera se o risco é muito alto em razão de projeções do
futuro; ou pelo voto retrospectivo, que é determinado pela experiência pessoal
com determinado político que está no poder, calculando se houve uma melhora ou
piora da vida pessoal. Se a resposta for melhora de vida, a tendência do voto é
manter o candidato. Se a vida apresentou uma piora, a tendência do voto é
trocar o candidato. Neste sentido, esta abordagem proposta por Figueiredo
enquadra-se, de modo semelhante, à preferência dos eleitores do Bolsonaro, uma
vez que eles responsabilizam os governos passados do PT (e PSDB) por terem
conduzidos o Brasil à crise econômica e política, com diversos escândalos de
corrupção e um aparelhamento do Estado. Assim, assumem uma opção teleológica na
sua preferência eleitoral por Bolsonaro, buscando a opção oposta àquela que já
estava no poder (o PT), por julgar que as perspectivas e possibilidades
propostas pelo candidato desafiante, Jair Bolsonaro, atenderão as necessidades
de mudanças que o país necessita.
Para Figueiredo, a flutuação na direção do
voto é função da capacidade do partido em:
“...suprir os diversos segmentos sociais
com políticas que atendam primeiramente às demandas de curto prazo e,
secundariamente, os projetos políticos de longo prazo. Os partidos, e
principalmente seus candidatos, precisam em primeiro lugar ‘mostrar serviço’.
Posteriormente, deverão demonstrar a cada eleitor que sua situação social não é
fortuita, mas sim causada em boa parte pela ação dos governantes”. (FIGUEIREDO,
2008, p.93)
Uma primeira conclusão que se chega ao se
valer das teorias de Marcus Figueiredo, é que elas não podem ser descritas
empiricamente, em razão do voto do eleitor não ser motivado unicamente por simples
questões de preferencias. Segundo Figueiredo, “a opção eleitoral entre o curto e o longo prazo está estritamente
condicionada pela elasticidade dos recursos individuais inerentes a cada
posição na escala social” (FIGUEIREDO, 2008, p. 92). Ou seja, são
fortemente influenciadas na sua elasticidade pela oscilação da economia. No
entanto, é possível compreender a ação dos eleitores no pleito presidencial de
2018, em razão dos antagonismos propostos entre os candidatos à Presidência e
seus partidos, seja na aprovação ou rejeição de suas candidaturas. Mostra-se
uma forte insatisfação política com o governo petista, fomentado e
retroalimentado pelas constantes denúncias de corrupção vinculando os líderes
deste partido; um anseio por mudanças motivadas pelo crescimento de um
posicionamento de extrema-direita se opondo e rejeitando a toda proposta
política e ideológicas que se vinculem aos últimos governos comandados pelo PT.
Neste sentido, o desafiante do PSL, Jair Bolsonaro, chegou ao segundo turno com
um forte apoio popular, resultado desta inversão e recrudescimento das
preferências políticas de eleitores que estão desgastados com a velha política
e seus representantes. Não se pode ignorar o alto nível de estímulos que os
eleitores do Bolsonaro receberam determinando suas preferências, principalmente
na relação direta com os perfis da rede social do candidato. Pode-se
identificar, entre os eleitores do Bolsonaro, um grande número de religiosos
que tiveram suas demandas representadas, como a crítica à ideologia de gênero, o
aborto, a corrupção, à defesa da família, atendidas pelo candidato. Bolsonaro
se colocou como o porta-voz e defensor dos interesses destes grupos religiosos.
O resultado do pleito confirma esta premissa. Jair Bolsonaro foi eleito com
55,13% dos votos válidos, de forma atípica, evidenciando que nestas eleições
ocorreu a inversão de preferências por parte dos eleitores, que fugiram à
dicotomia PT e PSDB presentes nos pleitos desde 1994.
Referências Bibliográficas
27 Governadores eleitos em 2018:
Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/raio-x/governadores-2-turno/os-27-governadores-eleitos/?uf=sp>
Acesso em 10/12/2018.
FIGUEIREDO,
Marcus. A decisão do voto: Democracia e
racionalidade (Caps. 1-3). Belo Horizonte: UFMG, 2008.
SOBRINHO. Wanderley Preite, Do UOL. PSL elege mais de 50 deputados e 4 senadores. Disponível em <https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/08/psl-elege-mais-de-50-deputados-e-4-senadores.htm>
Acesso em 11/12/2018.
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Juliano Marcel é Graduado em Filosofia e Bacharelando em Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia e Ciência Política) pela UNICAMP.

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